Da liquefação e outras transmutações do amor

by Vitor Leal Pinheiro on March 21, 2012

Você, em violência singela, me invade e me toca profundo. E nesse ímpeto me transforma, e eu quero que você me assuma, me tome, me seja. Que eu me desabrocho em querências, eu me abro em amores e vontades.

Você nunca entenderá a extensão do teu reino, o poder do teu olhar. É que você tem essa mania de se insinuar em meus caprichos e basta um vislumbre do teu querer pro meu coração ecoar sustenidos. E eu me liquefaço em desejos.

Você me vê;
Eu me escorro inteira em vontades.
E te aceito.

Você, com seu toque estrangeiro, intui as fronteiras do meu desejar, as nuances do meu sentir. E ainda que eu resista, desbrava o espaço que nos une, escava em mim um lugar só teu; um território ausente de mim.

Você conquista meus limites. E eu te aceito, atendo a cada um dos teus desígnios. Eu te entrego meus segredos.

E te envolvo
inteiro
em mim.

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Uma pequena colaboração no T42<3s.

Elogio do instante

by Vitor Leal Pinheiro on December 5, 2011

Ode aos semáforos.
Às interrupções estratégicas da vida.

Glória à espontaneidade
programada pelos técnicos
do governo.

Uma elegia
aos cupidos involuntários
a entalhar brechas de vida
na própria vida.

Um brinde
aos beijos de espera.
aos abraços instantâneos
aos carinhos fortuitos
explorados não por urgência
mas por ocasião.

Bilhete

by Vitor Leal Pinheiro on August 17, 2011

L.

Você me soube.

Foi pelo olhar que adivinhou minha existência seca, meu distanciamento acadêmico. Você me invadiu e descobriu coisas que meu espelho não mostra.

Eu não posso aceitar isso, desculpe. Eu não posso. Porque eu me ocupo inteiro e me esparramo em tudo.

Você emparelhou seu tempo ao meu, mas isso não pode durar. Não entenda mal: todo mundo me é assim, todo o mundo. É que essa dor é muito minha e meu egoísmo não permite que eu também doa em você.

Sinto muito, mas você já sabe demais, e eu não posso te perdoar. Mesmo agora isso me consome e eu não sobro nem para mim.

Acaba aqui.

Com carinho,
V.

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Minha contribuição para o T42<3s deste mês. :)

Antigo

by Vitor Leal Pinheiro on August 8, 2011

Outro domingo se vai, outra chance de abandonar aquilo que fui. Mas esse sentimentalismo me inibe e eu teimo em carregar uns amores desgastados, essa nostalgia precoce do que nem mesmo senti.

Eu me apego. Minha alma tem muitos bolsos, transbordam toques, cheiros e gostos. Mas é que eu lembro de cada esquina. São tantas lágrimas, tantos sorrisos.

E eu não resisto aos sorrisos.

Sou refém de um passado criado. Trago em mim a saudade dos futuros que inventei. Eu não estou mais aqui. Eu vivo além. Já não sou isso aqui.

Às vezes eu me represento tão mal. Eu sou antigo e lembro de coisas que nunca existiram.

O amanhã nos limita

by Vitor Leal Pinheiro on August 1, 2011

Ressaca

by Vitor Leal Pinheiro on June 15, 2011

E ainda que eu busque o mar,
meu leito não se curva.
Insinua.
Eu sou esse rio de passagem,
que serve às pontes mas não
aos peixes.

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Esse eu publiquei originalmente no T42<3s, da Lorenices, uma pequena colaboração que eu quis trazer pra cá.

Sobre a felicidade

by Vitor Leal Pinheiro on May 23, 2011

Eu queria guardar todos os meus sentimentos
num balão
desses de criança.

Um pulmão de sorrisos.
De ódios, de raivas,
choros, lágrimas.
Um pulmão de tesouros furtivos.
Elástico.

Um balão de grito guardado.
De risos mofados.
De amores escondidos.

Um balão saturado de vida.

Plasma

by Vitor Leal Pinheiro on April 15, 2011

Às vezes eu queria que a literatura não fosse feita de palavras. Queria uma literatura só de ideias, imagens, só de pensamentos transmutados. Feita de plasma. De qualquer coisa mesmo, menos essas vogais, consoantes, pontos e vírgulas. Só uma ideia que passa, um significado sem signo. Assim: pura e imaculada. Sem rebuscamento, sem forma. Só a essência.

Porque a ideia se suja no jogo de palavras, nos truques do escritor. Escritores são isso: operários que passam seus dias a construir estradas imaginárias para lugares que só existem neles mesmos. Brincam com as palavras, jogam com a gramática. Sujeito, predicado, complemento. Ah, que bonita! – essa frase pela metade. Faz pensar, não?

Pobres ideias.

Confraria dos corações partidos

by Vitor Leal Pinheiro on April 7, 2011

Existe no mundo uma sociedade secreta, não por escolha, mas por destinação. Uma confraria de corações partidos, de almas dilaceradas. De esperanças remoídas. Existe uma sociedade de espíritos crentes. Descrentes. Que acorda por esperança, e dorme para tentar outra vez. Que fecha os olhos para dar ao acaso a chance de operar. Ao tempo a oportunidade de ser.

Gente que segue.

Que não crê em regras, que joga pra jogar. Que busca o que não se toca. Gente que sente o mundo mais próximo, visceral. Gente que nada sente. Gente que espera. Que vaga e vive. Que sorri. Que sabe. Gente que cheira. Que sente a presença, a ausência. Tem gente no mundo que ama, tem gente que se adia, arrasta.

Gente que segue. De peitos abertos, de corações tatuados. Que dorme na diagonal.

Existe no mundo gente que vive a vida atravessado.

Convite

by Vitor Leal Pinheiro on March 23, 2011

Vai lá em casa se perder um pouco
enchemos a cara, o estômago
e esvaziamos as almas.